Escrito em por . Atualizado em 26/06/2014 17:15h.

“Nós nem sequer paramos para por sapatos, fugimos com sandálias”

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As forças radicais islâmicas sunitas ISIS continuam sua tomada de cidades no Iraque.

Muitas pessoas fugiram de possíveis confrontos entre o ISIS e o exército iraquiano e da temida violência que ISIS já demonstrou em lugares que controla, como a cidade síria Raqqa.

Milhares estão agora em Erbil, 88km a leste de Mossul, capital da região autônoma curda do Curdistão: a ONU contou 14.000 em um posto de controle perto de Erbil. Moradores dizem que sempre foi ‘um mundo diferente’ no Curdistão comparado a outras partes do Iraque. Um dos distritos aparentemente mais ‘seguros’ de Erbil (onde alguns expatriados vivem e onde alguns consulados estrangeiros estão localizados) é o distrito cristão, Ankawa, com cerca de 35.000 residentes.

O World Watch Monitor falou com cinco famílias refugiadas em uma igreja local: 13 adultos e seis crianças pequenas, incluindo um líder da igreja, com sua esposa e filho crescido. Eles vieram de Mossul em quatro carros: isso levou 13 horas para ser feito, o que normalmente seria uma viagem de carro de uma hora.


O encontro das famílias

Uma família com quatro crianças pequenas, de três a nove anos, vivendo na área mais perigosa de Mossul – similar a Zona Verde em Bagdá – disse, após o ISIS alcançar Mossul em 6 de junho, que planejava partir cedo, por volta das 7 horas da manhã. Mas uma noite antes – enquanto eles jantavam – duas casas vizinhas a eles foram atingidas por RPGs e incendiadas. 

“Nós largamos a comida e corremos”, disse a esposa. “Nós nem sequer paramos para por nossos sapatos, mas fugimos com sandálias! Nós só nos certificamos de levar nossas identidades e documentos importantes. As crianças estavam muito assustadas”.

Eles tinham pouco crédito em seus telefones móveis e todas as lojas estavam fechadas durante aqueles poucos dias. Mas eles conseguiram se conectar com as outras quatro famílias e coordenar para saírem juntos de Erbil. Eles iriam primeiro se esconder no porão, mas depois decidiram fugir por volta das 10 horas da noite do ataque.

Soldados nas ruas disseram que eles teriam que andar porque não podiam levar seu carro – era tarde demais, o Da’ash (ISIS) já havia chegado à área. Os soldados não podiam deixar as pessoas saírem, mas eles não os impediram.

“Havia muitas famílias andando, todos estavam se movendo, estavam lotadas as ruas no meio da noite", explicou a família. O marido conseguiu voltar e pegar seu carro. Eles viram cadáveres nas ruas, soldados e policiais. “Nós descobrimos que apenas meia hora depois que deixamos nossa casa a Da’ash chegou no local".

“Agora não há cristãos em Mossul. Estava ruim antes, mas nunca assim como quando o Da’ash chegou. Eles são de todo lugar, Paquistão, Afeganistão. Eles vieram na sexta à noite. Primeiros eles tomaram o lado oeste, foram quatro dias de confronto. Mas em apenas duas hora, eles chegaram e tomaram o lado leste [de Mossul].”

Um senhora idosa falou sobre a longa viagem deixando Mossul: “Nós vimos muitas pessoas chorando e com muita raiva. Mas nós catávamos cânticos de louvores em nosso carro. Nós vimos o nascer do sol e estávamos dizendo, ‘Ó Deus, Tu és bom. Obrigado por essa paz que temos, nós não dormimos durante a noite, e ainda até agora, mas nós não estamos com raiva. Quando nós somos ricos em Deus, é muito especial nesses tipos de tempos difíceis'” .

Em um lugar onde ele foram parados esperando para passar, ela viu alguns jovens homens que estavam com muita raiva. Ela foi até eles e falou: “Vocês acreditam em Deus?” Quando eles disseram sim, ela perguntou, “Posso orar por vocês?” Então eles disseram ‘sim, por favor, ore por nós’. Assim ela orou com eles ali. “E eu ainda estou orando por eles agora,” ela acrescentou.

O líder da igreja se juntou: “Ore para que nós possamos retornar rapidamente para Mossul, porque o futuro é desconhecido para todos nós. Os tipos de empregos que nós podemos conseguir aqui é limitado e claro que estudantes perderam suas provas finais, que agora estão adiadas. Como nós podemos viver, achar trabalho para uma renda? A igreja está nos ajudando temporariamente com despesas de subsistência, mas nós não podemos ficar aqui para sempre. Se nós não pudermos retornar, iremos nos inscrever para residência aqui em Ankawa. Cremos que Deus vai cuidar de nós, assim como Jesus disse que Ele faz pelas aves do céu!”

“Deus é bom, todo o tempo!” ele acrescentou, com um grande sorriso, apontando para as crianças caindo uma em cima da outra e brincando no minúsculo corredor. “Nós oramos para que as coisas melhorem, para que possamos voltar para Mossul.”

Ao sair, o líder da igreja fez um último apelo: “Orai pela paz no Iraque. Nós tivemos o suficiente de guerras. Lugar nenhum é seguro aqui.”


Curdistão, um santuário

Esse senso temporário dos iraquianos no Curdistão proporcionando um porto seguro para minorias é ecoado por um Cristão iraquiano em Ankawa: “Enquanto [o Primeiro-Ministro Barzani] estiver no poder aqui no Curdistão, não haverá problema para os Cristão.”

Um jornalista da agencia de notícias local, Ankawa.com, disse: “Há 200 famílias cristãs de Mossul agora em Al Kosh, no monastério Mar Girguis (São Jorge). As pessoas em Mossul estão indefesas, elas não confiam em ninguém. De qualquer forma, no Iraque, curdos e árabes não confiam uns nos outros, sunitas e shiias não confiam uns nos outros. Então, eles fugiram, a maioria sem os seus veículos, apenas foram caminhando, para Dohuk, para Al Kosh… Mas temos ouvido que o exército tomou de volta o Edifício Governante em Mossul.”

O World Watch Monitor também falou com Jalal Aziz, o prefeito do Distrito de Ankawa, e ele disse, “Eu não desejo para ninguém passar por essa fuga de suas vidas, muçulmanos e cristãos. Eu espero que o Da’ash não chegue aqui a Erbil. Por enquanto, não está nos afetando. Nós somos independentes aqui e é seguro…”

“Cristãos que tem parentes ou amigos podem vir a morar aqui se eles os patrocinarem. Não há campos aqui em Ankawa para os novos refugiados de Mossul, que estão todos fora de Erbil, estabelecidos pelo Governo Regional Curdo, KRG. Mas nós estamos realmente ajudando fornecendo alimentos, água e roupas para estes acampamentos do governo,” disse Aziz.

Ele continuou: “Confiamos no KRG para nos proteger. Nós temos toda liberdade para culto e celebrar nossos feriados religiosos e o governo nos dá segurança especial aqui. Quando cristãos vieram de Bagdá, a eles são dadas terras para construírem igrejas e se instalar aqui. Nós até temos 120 famílias desabeus (os seguidores de João Batista) que fugiram para aqui vindos do sul.”


Perguntas & respostas com o Diretor do Distrito de Ankawa

WWM: Você está agora pessoalmente ansioso sobre o que pode acontecer aqui em Erbil?

Jalal Aziz: Nós esperamos, e confiamos que o governo vai nos proteger.

WWM: Você acha que esta tomada de Mossul vai fazer com que cristãos iraquianos deixem o Iraque?

Jalal Aziz: Isso depende da situação; se as pessoas serão capazes de voltar novamente para Mossul ou se eles terão que ficar em outras áreas seguras.

WWM: Existem relatos (não-confirmados) de que cristãos estão sendo tomados como reféns em Mossul?

Jalal Aziz: Sim, nós ouvimos que eles tomaram cristãos como reféns. Os cristãos do Iraque são um grande alvo, eles sempre são.


Clima atual em Mossul

Um casal cristão supostamente retornou para Mossul depois dos ataques iniciais para recuperar documentos importantes e ligaram para dizer que a cidade está praticamente deserta, sem qualquer sinal dos Da’ash.

Enquanto isso, um repórter da BBC Árabe, que entrevistou várias pessoas que haviam deixado Mossul para fugir para o Curdistão iraquiano, disse que ele perguntou a todos que falavam com ele se haviam visto tropas ISIS ferindo civis, e todos disseram que não tinham; que forças ISIS não os impediram de deixar Mossul.

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FONTE: World Watch Monitor
TRADUÇÃO: Isabela Emerick l ANAJURE