Escrito em por . Atualizado em 17/03/2017 18:02h.

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[FOTO: Mary Lunyamila Meshack, viúva, 35 anos].

Mary Lunyamila Meshack lembra como a sua vida mudou para sempre na noite em que seu esposo esteve de guarda durante um serviço noturno na sua igreja em Mwanza, às margens do Lago Victoria. Seu esposo, Elias Meshack, que trabalhava com o grupo de jovens no norte da Tanzânia, tinha 35 anos quando foi morto em 2013. 

Desde o assassinato, as igrejas no norte da Tanzânia têm enfrentado ataques repetidos. A Tanzânia está em 33º lugar na World Watch list 2017 da Open Doors, que aponta os países onde é mais difícil viver como cristão.


Segue o relato:

Eu o conheci na igreja. Ele era o presidente do grupo de jovens. Nós nos apaixonamos e casamos em 2009. Nossa vida era boa. Fiquei grávida logo e tive Prosper em 2010, e quando ele tinha três anos eu dei à luz nossa filha, Prisca. Oito meses depois, Elias foi morto. Aconteceu na noite de 21 de outubro. Ele veio para casa do trabalho, tomou um banho, jantou e depois foi para a igreja por volta das 21 horas. Ele foi para vigiá-la porque houve uma série de ataques às igrejas na área. (No dia anterior, dois outros líderes da igreja haviam sido mortos no vizinho Quênia). Na manhã seguinte (22 de outubro) por volta das 6h da manhã, uma multidão da igreja bateu na minha porta; eu sabia que algo terrível havia acontecido. Nosso pastor me disse que a igreja tinha sido atacada e Elias tinha sido espancado até a morte. Outros dois ficaram feridos, mas sobreviveram. Quando eu ouvi a notícia eu chorei tão alto que os vizinhos vieram para ver o que estava acontecendo. 

Por muito tempo depois eu fiquei com muito ódio dos agressores. Muitas igrejas foram queimadas. Alguns líderes da igreja foram mortos, outros queimados com ácido. Eu me perguntava por que nós cristãos tínhamos que sofrer tanto até o ponto em que a perseguição atingiu minha própria família. Honestamente, se eu tivesse conhecido um dos agressores, eu não sei o que eu teria feito.

Eles mataram meus sonhos. Fiquei arrasada em pensar que os meus filhos perderam seu pai em uma idade tão jovem. Eles precisavam dele. A paternidade individual é difícil. Eu faço o meu melhor, mas fico muito triste quando me lembro que costumávamos ser dois. Agora estou sozinha. Eles mataram meus sonhos. “Eu tinha muitas perguntas para Deus: ‘Por que isso aconteceu comigo? Por que sou viúva, tão jovem? Por que eu?'”

Mas com o passar do tempo, eu aceitei que meu marido se foi. Foi um trabalho árduo, mas hoje meu relacionamento com Deus é forte – embora às vezes, quando começo a orar, de repente eu tenho uma memória e não consigo mais orar.

Mas eu agradeço a Deus. Ele me dá força e eu nunca fui dormir com fome. Ele está com meus filhos e nos dá força para seguir em frente. Quando eu sinto dor e fico triste, eu ligo o rádio e canto música Gospel. Minha igreja tem sido boa para mim. Eles continuam a visitar e cuidar de mim e das crianças. Pouco depois da morte de Elias, Maria foi visitada por Hadassa*, que trabalhou para Open Doors, uma instituição de caridade global que trabalha com cristãos perseguidos.

box-of-letters-300x225Ela trouxe uma grande caixa de cartas, eram muitas. Fiquei profundamente consolada porque elas provaram que o mundo inteiro tinha ouvido falar do meu infortúnio. Meu inglês não é tão bom, mas mesmo assim eu continuei vendo as palavras: ‘Não se preocupe, Mary!’ E ‘Deus te abençoe, Mary!’, que eu conseguia entender.

A grande caixa chamava a atenção dos visitantes. Quando eles perguntavam sobre ela, eu dizia para darem uma olhada. Muitos gostaram tanto dos cartões que perguntavam se poderiam levar alguns para casa. Agora tenho apenas alguns restantes!

Meu sonho para o futuro é viver bem e me manter forte com meus filhos para dirigir um negócio e garantir que não falte nada a eles. É difícil, mas estou confiante de que vou fazê-lo e não perder a esperança.


* Nome alterado por razões de segurança

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Fonte: World Watch Monitor
Tradução: Andressa Toscano l ANAJURE