Escrito em por . Atualizado em 27/04/2015 17:47h.

'Não consigo encontrar palavras. Isso é tortura,'  disse o tio de um dos 148 mortos.

Quênia

Um culto aconteceu na capital do Quência, Narobi, no último dia 09 de Abril para homenagear os 148 estudantes mortos pela Al Shabab na semana passada.

Os quenianos ainda estão em estado de choque diante do ataque no nordeste do país, na Universidade de Garissa no dia 2 de abril, onde os cristãos foram separados e mortos no ataque que mais causou mortes em solo queniano desde os bombardeios da Embaixada dos EUA de 1998. (No ataque de Setembro de 2013, no Shopping de Westgate, complexo comercial de Nairobi, 67 pessoas foram mortas pela Al Shabab. Existem relatos que os agressores perguntaram se as vítimas eram cristãs ou muçulmanas, mas não foi possível verificar a veracidade da informação).

Muitas das famílias dos estudantes mortos tiveram que viajar para Nairobi e ainda continuam por lá, enfrentando a difícil tarefa de identificar os corpos de seus parentes, muitos deles desfigurados, trazendo-os do nordeste.

A identificação dos corpos se torna difícil devido aos graves ferimentos sofridos pelas vítimas das explosões de granadas e à dificuldade de preservar os corpos no calor.

O pai de uma das vítimas disse que não foi capaz de identificar o corpo de seu filho depois de passados três dias de buscas no Mortuário de Chiromo.

 “Não consigo encontrar palavras”, acrescentou o tio do estudante que foi morto. “Nós estamos sem saber o que falar. Nesse momento, só queremos achar o corpo. Mas procurar no meio dos corpos uma marca para identificá-lo é muito doloroso… Isso é tortura. Que Deus nos ajude a encontrá-lo!” 

O colégio tinha cerca de 800 alunos, dos quais mais de 500 eram não-muçulmanos.

Cerca de 200-250 alunos participaram das reuniões da União Cristã, a qual convida os alunos para adorarem juntos, estudarem a Bíblia e desenvolverem a liderança.

FOCUS Kenya, uma organização que trabalha com estudantes em 144 Uniões Cristãs em todo o país, incluindo os alunos da Universidade de Garissa, está oferecendo comida, transporte e alojamento para os parentes traumatizados.

George Ogalo, Diretor Nacional da FOCUS Quênia, disse que apesar dos ataques anteriores da WWM da Al Shabab, os quenianos não esperavam um ataque específico direcionado aos estudantes.

“Esta é a primeira vez que tivemos um ataque cujo alvo são os estudantes em uma universidade", ele disse. "Não houve nenhuma previsão da população em geral que isso iria acontecer nesse cenário. Portanto, há raiva e choque, porque esta é a geração que é o futuro do país. Era seu horário nobre."

Ogalo falou de "choque e raiva" entre a fraternidade cristã, no Quênia, uma "grande perda" no "aparente perfil" dos cristãos. Um aluno testemunhou: "De repente, eu os vi jogar explosivos… onde os membros da União Cristã estavam orando". Cerca de 22 estudantes que frequentavam devoções matinais foram mortos depois que as granadas foram jogadas em sua capela improvisada.

“Temos de perguntar: quais são as implicações à luz desta nova realidade do terrorismo?”, Ogalo continuou. "O FOCUS Quênia não estava preparado para este tipo de desastre dentro do contexto em que servimos, e, particularmente, que os cristãos podem ser mortos enquanto estão orando!"

No domingo de Páscoa, os alunos de universidades em todo o Quênia realizaram cultos e recolheram ofertas para serem distribuídas entre os afetados pelo ataque.

O presidente da União Cristã na Universidade de Garissa, um sobrevivente do ataque, falará no culto de homenagem na “Igreja Cristo é a Resposta” no Valley Road, esta tarde.

Ogalo, enquanto segurava o nome do rapaz, disse que ele está "lidando bem".

"Ontem dois funcionários falaram com ele. Ele está bem no momento. Dois de seus companheiros foram mortos e seu outro companheiro de quarto foi baleado, mas não foi fatal. Mas ele está lidando bem. Ele está hospedado em Nairobi com a sua irmã. Estamos tentando ter cuidado, para não sufocá-lo – ou ir muito rápido com seu processo de cura".

Fotografias de alguns dos alunos foram publicadas on-line e divulgadas no Twitter com a hashtag  #147NotJustANumber (#147NãoApenasUmNúmero), uma referência ao número de mortos inicialmente. Fotografias dos corpos ensanguentados e queimados de alunos também têm aparecido.

Na sequência dos ataques, o presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, declarou três dias de luto nacional e prometeu responder ao ataque no "modo mais severo possível".

No dia 6 de Abril, bases quenianas de caças bombardearam as bases da Al Shabaab na vizinha Somália, onde a organização está estabelecida.

Após reclamar que a responsabilidade pelo ataque em Garissa foi devida às forças quenianas na Somália, Al Shabab prometeu mais derramamento de sangue, dizendo que "pelas cidades quenianas correrá o vermelho de sangue".

O ataque à Garissa precisa ser visto em um contexto mais amplo, disse Gideon Para-Mallam, Secretário Regional da Sociedade Internacional de Estudantes Evangélicos na África (IFES-EPSA).

Em declarações à WWM, ele continuou: "Este ataque bárbaro e macabro em estudantes inocentes devem ser interpretadas à luz da jihad global, com Al Shabab na África Oriental, Boko Haram na Nigéria e Al Qaeda no Maghreb (AQIM) e seus aliados em Mali.

"Quando eu ouvi os testemunhos dos estudantes no Quênia, me lembrou de massacre do Boko Haram no Colégio Mubi [no nordeste da Nigéria] em 2012. Como no Quênia, os militantes selecionaram estudantes cristãos e os mataram em Mubi. Mesmo os professores cristãos não foram poupados.

“O terrorismo é uma ameaça real para toda a África Subsaariana. Tanto cristãos como muçulmanos que não acreditam neste tipo de ideologia de ódio e destruição devem se unir e dizer não ao terrorismo".

Líderes religiosos do Quênia – cristãos e muçulmanos – incentivaram quenianos durante o fim de semana da Páscoa para não permitir que a tragédia divida o país em linhas religiosas. Mais de 80 por cento dos quenianos são cristãos, embora no nordeste do Quênia cerca de 90 por cento sejam muçulmanos.

Várias celebridades do Quênia se manifestaram condenando o ataque, incluindo Ciru Muriuki, uma apresentadora popular da Nação FM, uma estação de rádio líder, que enviou uma carta ao Al Shabab.

Na carta, ela comparou "a morte do estudante com a de Cristo e manifestou o perdão para os agressores”.

"Estou triste pelas famílias [dos estudantes] que têm de viver com a perda, mas eu não estou triste pelos estudantes propriamente. Foi uma morte bonita”, escreveu ela. “Eu suponho que você [Al Shabab] deliberadamente escolheu o tempo, porque é Páscoa. O tempo que Cristo deu a Sua vida por todos nós, sim, mesmo por você."

_________________________
Fonte: World Watch Monitor 
Tradução: Aléxia Duarte l ANAJURE