Escrito em por . Atualizado em 06/09/2018 14:39h.

Mais de 700 pessoas buscaram refúgio no acampamento St-Theresa em Yola (Foto: World Watch Monitor)

Mais de 700 pessoas buscaram abrigo no acampamento St-Theresa em Yola (Foto: World Watch Monitor)

 

No nordeste da Nigéria, milhares de pessoas que fugiram dos ataques do Boko Haram foram orientadas a voltar para casa, apesar das preocupações de segurança.

A insurgência do Boko Haram durante nove anos levou a uma crise aguda, descrita pela ONU como uma das mais severas do mundo atualmente, com mais de 20.000 pessoas mortas, mais de 4.000 mulheres e meninas sequestradas e mais de 2 milhões de deslocados internos. As necessidades humanitárias mais agudas estão concentradas no estado de Borno – e áreas fronteiriças, nos estados de Adamawa e Yobe – onde a crise não mostra sinais de diminuição, afirmou a ONU, devido às hostilidades e estratégias militares que devastaram os meios de subsistência e tornaram os civis extremamente vulneráveis.

Agora, porém, milhares de deslocados internos enfrentam pressão para retornar às suas aldeias, por parte de autoridades do governo, que afirmam que as áreas de moradia estão seguras e que podem voltar a serem habitadas, como relata a Reuters. Em junho, cerca de 2.000 deslocados internos que viviam no campo Bakasi, em Maiduguri, capital do estado de Borno, foram orientados a ir para casa.

A decisão do governo suscitou preocupação e críticas entre os trabalhadores humanitários e os diplomatas ocidentais, que apontam que o programa visa as eleições na Nigéria, com o objetivo de ter o maior número possível de retorno para votação nas rodadas primárias dos partidos. Elas começaram em agosto, antes das eleições presidenciais de fevereiro de 2019. O padre Maurice Kwairanga, encarregado do campo para deslocados internos da Igreja de Santa Teresa, em Yola, capital do estado de Adamawa, também o denunciou como propaganda política. Ele disse ao World Watch Monitor:

“As autoridades querem mostrar que estão vencendo a guerra, embora em níveis locais, onde as pessoas vivem, principalmente em áreas remotas, a situação não é suficientemente segura. Em algumas partes de Michika, Madagali e Gwoza, ainda há bolsões de militantes que se deslocam em pequenos números – 15 a 20 insurgentes portando armas – mas grandes o suficiente para saquear uma vila de 500 habitantes. Alguns deslocados internos em St. Theresa vêm do sul do estado de Borno, principalmente de Gwoza, que era a ‘capital’ do Boko Haram”.

O presidente Muhhamdu Buhari, que busca um segundo mandato nas eleições de fevereiro de 2019, chegou ao poder em 2015 com a promessa de silenciar o Boko Haram. Mas, até agora, ele não conseguiu conter a insurgência islâmica, apesar das alegações de que o grupo radical islâmico foi tecnicamente derrotado.

Na quinta-feira (30 de agosto), dezenas de soldados nigerianos foram mortos quando os militantes invadiram sua base na vila de Zari, no norte do estado de Borno, perto da fronteira com o Níger. É o quarto ataque mortal a postos militares no nordeste da Nigéria desde julho: o Nigéria Premium Times afirma que pelo menos 90 soldados foram mortos nas últimas seis semanas.

O padre Kwairanga lembrou como se opôs a tentativas de transferir os deslocados internos do campo de Santa Teresa, em junho. Ele disse que em duas ocasiões, o governador do estado de Borno – com o exército – trouxe caminhões para realocá-los, mas eles se recusaram: “Então nós lhes dissemos para deixar essas pessoas em paz; não há necessidade de forçá-los se eles não quiserem voltar”.

Os supostos repatriados indicaram que alguns deslocados inicialmente retornaram às suas comunidades ao longo da fronteira com os Camarões, apenas para serem mortos. Alguns conseguiram fugir de volta para o campo de Santa Teresa. Alguns foram deslocados duas ou três vezes, enquanto milhares ainda estão presos em comunidades em torno de Yola.

Outros deslocados internos, enviados forçosamente para casa, agora vivem em campos ao redor da cidade de Gwoza. Eles disseram que militantes se escondem nos arbustos e nas montanhas. Eles estão atacando e matando – e raptando jovens mulheres – durante a noite e não há presença do exército ou da polícia nesses locais.

Fome iminente

O governo fechou alguns campos. Os deslocados que se recusaram a voltar para suas aldeias não recebem mais ajuda, alguns agora enfrentam grave escassez de alimentos.

“Infelizmente, não temos recursos suficientes para atender às demandas”, disse o padre Kwairanga. “A Igreja Católica fornece comida e alívio para mais de 700 deslocados internos em Santa Teresa, mas também assumimos a responsabilidade pela distribuição de alimentos em outros lugares, quando os recursos nos permitem fazê-lo”.

Ele disse que a atual insegurança também é alimentada por ataques realizados por fulanis criadores de ovelhas. “A maioria dessas comunidades está baseada na agricultura. Mas por motivos de segurança, eles não podem mais cultivar”. Ele afirmou ainda que os pastores vão em grande número, alguns de países vizinhos, armados com armas perigosas, para invadir as comunidades, destruir as plantações e matar.

“Durante a última estação chuvosa (junho a outubro), alguns retornados conseguiram cultivar. Mas em novembro, quando as colheitas estavam prestes a ser colhidas, os criadores de ovelhas – de etnia fulani – vieram com seu gado e destruíram tudo. Qualquer tentativa dos moradores de parar os criadores de ovelhas é suicida, pois eles estão fortemente armados”.

Tentativas de denunciar ataques à polícia não são bem-sucedidas, continuou ele. Devido à burocracia, pode demorar dois dias para as forças de segurança intervirem. Até então, os pastores destruíram tudo e foram para longe, diz ele. Às vezes, as forças de segurança estão relutantes em intervir; eles não têm armas, como as que são carregadas pelos fulani.

Ontem, em uma conferência de mais de 70 estados, organizações internacionais e ONGs em Berlim, os doadores prometeram US $ 2,17 bilhões para as regiões da bacia do Lago Chade afetadas pela insurgência do Boko Haram, informou a Reuters. De acordo com o chefe humanitário da ONU, Mark Lowcock, a fome foi evitada na região no ano passado, em grande parte graças à ajuda internacional. Mas, milhões de pessoas na Nigéria, Níger, Chade e Camarões ainda estão em extrema necessidade. Ele alertou: “A crise não acabou. Ainda há 10 milhões de pessoas que precisam de assistência para salvar vidas. Um quarto das pessoas que estamos tentando alcançar são deslocadas de suas casas e o único meio de permanecerem vivos é através do que é fornecido por organizações humanitárias.”
_________________________________
Tradução do site World Watch Monitor