Escrito em por . Atualizado em 30/08/2018 14:07h.

Pessoas deslocadas da seita minoritária Yazidi caminham em direção à fronteira com a Síria, nos arredores da montanha de Sinjar, em 11 de agosto de 2014 [Rodi Said / Reuters]

 

Em um convento alemão, a igreja está sendo usada como último recurso de abrigo para um grupo de yazidis iraquianos cujos pedidos de refúgio foram rejeitados. Os Yazidis constituem uma comunidade étnico-religiosa curda cujos membros praticam o Yazidismo. A ONU  estima  que, em agosto de 2014, cerca de 3 mil Yazids foram mortos e 6 mil foram mantidos em cativeiro, após o massacre ocorrido na planície de Sinjar, no Iraque, impetrado pelo grupo terrorista Estado Islâmico.

A irmã Stephanie, uma das freiras do convento alemão que abriu suas portas aos deslocados forçados, afirmou que o convento vai proteger o grupo, impedindo-os de serem deportados. Ressaltou, porém, que a instituição religiosa tem sido sobrecarregada com pedidos de refúgio nos últimos dias.

Em 2015, a igreja e o Escritório Federal Alemão para Migração e Refugiados assinaram um acordo em que o estado deve tolerar o refúgio fornecido pelas igrejas, enquanto os avisos de deportação são reconsiderados. As igrejas devem notificar as autoridades sobre cada caso tratado. Entretanto, apesar do acordo, o “asilo de igreja” não é reconhecido, mas também não é punível. A prática de buscar refúgio em uma igreja é uma tradição secular em toda a Europa. Uma igreja que oferece refúgio geralmente assiste as necessidades básicas, como alojamento e alimentação.

Muitos países, a ONU e organizações internacionais reconheceram o genocídio em Sinjar, em 2014, quando o Estado Islâmico atacaou a comunidade Yazidi. Apesar disso, muitos países da União Europeia (UE) têm negado os pedidos de refúgio feito pelos Yazidis. Várias das pessoas que estavam no convento tiveram seu pedido de refúgio na Alemanha negado por causa do regulamento de Dublin da União Europeia, que exige que os requerentes de refúgio permaneçam no primeiro país da UE em que registraram as impressões digitais. Outros enfrentam a extradição para os países da União Europeia, onde dizem que foram perseguidos. Todos, porém, esperam permanecer na Alemanha.

“Não há comida suficiente e as tendas estão desmoronando lá”, disse um dos requerentes de refúgio à Al Jazeera, “nós perdemos tudo em 2014 e não recebemos proteção no Iraque. A Alemanha é um lugar onde tenho apoio da família e onde espero poder trazer minha esposa e filhos para que possamos viver juntos como uma família em segurança “. Outro deslocado forçado, Saido, 28 anos, está sendo informado de que deve voltar para a Bulgária, mas ainda espera encontrar uma maneira de levar para Alemanha sua esposa e quatro filhos, que ainda vivem em um acampamento no Monte Sinjar.

As estatísticas oficiais mostram que a taxa de aceitação para os Yazidis que reivindicam refúgio na Alemanha é de 83%, menor do que em 2015, quando estava em 97,4%. Sinjar está destruída e não dispõe de proteção para os Yazidis. Atualmente, o convento alemão abriga 12 Yazidis. Porém, em outros lugares da Europa, 11 Yazidis no Reino Unido estão enfrentando deportação de volta para o Iraque.

“Asilo da igreja é um último recurso”, disse irmã Stephanie, em entrevista ao Al Jazeera. Ela ainda acrescentou que a demanda aumentou desde o início do ano passado.

“Enquanto muitos países, a ONU e organizações internacionais reconheceram o genocídio, os países da UE estão recusando os pedidos de asilo de tantos Yazidis”, disse Ahmed Khudida Burjus, da Yazda, uma organização que apóia as vítimas do massacre de Yazidi ao Al Jazeera.

“Terras Yazidis não são estáveis. As áreas não foram desmatadas, mas mais de 80% da população Yazidi está vivendo em uma situação miserável em campos. Mais de 3.000 Yazidis ainda estão desaparecidos. A justiça não foi cumprida e os criminosos que cometeram genocídio e guerra, os crimes contra os Yazidis, estão caminhando livremente dentro e ao redor de Sinjar. Então, como podemos retornar?”

Em 2017, as igrejas alemãs, com o consentimento do Escritório Federal Alemão para Migração e Refugiados, conseguiram impedir 1.478 deportações planejadas. Nos primeiros três meses deste ano, as igrejas pararam ou atrasaram mais de 500 casos.
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Fonte: Al Jazeera